"-... esse sujeito de quem estou falando trabalhava como domador de cavalos (...) parecia ter sido feito por encomenda para domar os potros; mas a verdade é que ele tinha outro ofício: o de 'provocador'. Era provocador de sonhos. Isso é que ele era realmente." Pedro Páramo, Juan Rulfo.

quinta-feira, 13 de novembro de 2008

Algumas coisas custam mais do que você imagina


"All I need" - Radiohead

Duas crianças em mundos a parte. Estão conectadas pelos sapatos que uma fabrica e a outra usa.


Duas crianças: uma branca, loira. Mais adiante podemos imaginar que se trata de uma criança norte-americana. Outra criança, asiática. Dadas as condições de vida podemos imaginar que pode ser da China, Tailândia, Vietnã ou outro país do sudeste asiático.

A primeira tomada já apresenta diferenças significativas. Enquanto uma criança branca dorme sozinha em sua cama repleta de objetos pessoais crianças asiáticas dividem um espaço que não se pode chamar de quarto, seria um corredor? Seria a diferença da cultura do individualismo ocidental de um lado e do outro o "formigueiro humano" asiático? As crianças asiáticas acordam aos gritos e chutes de uma mulher.

Uma tela dividida. Lado direito e esquerdo? Ou seria hemisfério ocidental e oriental?

A criança branca levanta-se, troca de roupa, muda de lugar (um banheiro) e escova os dentes. Vemos objetos pessoais.
As crianças asiáticas levantam-se e não trocam de roupa. Algumas dormiram sem camisas (faz calor). Uma criança lava-se numa bacia ao lado do lugar onde dormira.

Criança branca- uma casa: sala com eletroeletrônicos, cozinha e uma mesa onde come o menino vendo televisão. Comida e suco.
Criança asiática- uma casa(?)-fábrica-oficina, bancadas com ferramentas e crianças alinhadas. Linha de produção. Menino cuida das solas de sapatos. Solas e cola.

De um lado cores e luz. De outro, preto e cinza, um lugar sombrio.

Criança branca- uma mulher ao fundo parece cuidar porque provavelmente foi ela quem preparou a comida do menino.
Criança asiática- uma mulher que manda e bate na cabeça do menino. Fala de forma imperativa e bate a mão na bancada. O menino não a fita. Seu olhar é baixo.

Criança branca- sai de casa, caminha pela calçada em direção à escola. Pelo caminhar o menino parece ter seu próprio tempo. Não tem pressa.
Criança asiática- vive o tempo da produção. Ele não tem tempo para si.

Menino asiático- toma outro tapa! Olhar baixo.
Menino branco- outro ambiente: sala de aula. Recebe um toque afetivo da professora.
Um livro na mão. Crianças enfileiradas, só que aprendendo. Ele vai até a lousa, professora comenta sua participação.
Menino asiático- sola, cola.

Menino branco- outro ambiente. Jogos, brincadeiras, lanche.
Meninos asiáticos amontoados- outro ambiente? Comem. Alimentam-se?

Menino branco- desenha dragões: símbolo mitológico asiático. Ele vive e estuda sua cultura e ainda pode estudar a cultura do outro.
Menino asiático- não vive. Sola e cola.

Instrumentos e ferramentas:
Caixa de canetas coloridas- a diversidade da vida, o lúdico, a possibilidade de escolha.
Pincel de passar cola e sola- o trabalho forçado, a monotonia do preto e do cinza. Uma vida sem escolhas.

Menino branco- outro ambiente: em casa joga bola.
Menino asiático- cola sola.

Menino branco- no seu quarto troca de roupa. tira os sapatos.
Menino asiático- suas mãos fabricam sapatos que calçam os pés da criança branca.


"Some things cost more than you realise"
Algumas coisas custam mais do que você imagina.


O globo no quarto. Estas duas crianças vivem no mesmo planeta por mais incrível que isto possa ou não parecer.


Elas não tem culpa nem responsabilidade, mas estão cruelmente conectadas. Há uma interdependência que não deveria existir. Elas representam a divisão entre o mundo que pode desfrutar e aquele que apenas tem a mão-de-obra (barata) a vender. É a globalização do capital que integra lugares que consomem e lugares que produzem. É a Divisão Internacional do Trabalho que tem de um lado países de grande concentração de capital, que dominam a tecnologia e comandam. De outro temos países dependentes de capitais e que se subordinam às transnacionais que buscam nestes países somente facilidades para a reprodução do seu capital.
A criança branca pode ser européia, norte-americana.
A criança asiática pode ser do país que está gravado no seu tênis logo depois do "Made in..."

3 comentários:

Bruno Aguiar Santos disse...

Grande professor, grande pessoa!
Te admiro muito Fernando, você sabe da vida, você entende boa parte dela.
Preciso reativar meu blog, e passar mais tempo por aqui.

Além da música do vídeo ser ótima, sou obrigado a tecer alguns comentários sobre.
Qual o custo de um tênis simples?
Um tênis Nike?
Pegando aqui a primeira página da Americanas, o mais barato é 109,00R$, esse é o preço, mas, quanto esse tênis "custou"?
Não, o asiático não recebe 100 reais por meses e meses.
O custo então, é mais do que monetário, é um custo real, de uma vida.

Um grande abraço Fernando, belo texto!

Fernando disse...

Valeu Bruno!
Obrigado pelos elogios, mas da vida nâo sei muita coisa. Sou mais um aprendiz.
Realmente quase tudo neste mundo a gente não sabe o valor das coisas. A gente sabe de preço, valor é outra coisa.
Abçs.

lucila disse...

Profeessooor!
ficou muito boa a analise do clip
;D
agoora tenho so que esperar para a prova de amanha hahaha

beeijos
Lucila ( aluna do Joao XXIII - 2A)